quinta-feira, 30 de abril de 2009

Conversando com os Mortos - A História da "Brincadeira do Copo"‏

http://projetoockham.org/historia_copo_1.html

 

Introdução

 

Um grupo de amigos, normalmente crianças ou adolescentes, senta-se em torno de uma mesa. No centro da mesa há um copo com a boca para baixo; ao redor dele pedaços de papel ou cartolina contendo as letras do alfabeto, os algarismos de 0 a 9 e as palavras "sim" e "não". Um respeitoso silêncio se espalha pelo ambiente, entrecortado talvez por alguns risinhos nervosos, enquanto todos apóiam o dedo indicador no fundo do copo. Alguém, normalmente o mais corajoso, assume a liderança e pergunta se há um espírito presente no local. Depois de um minuto de suspense o copo começa a se mover, aparentemente sozinho, mas nunca sem os primeiros protestos: "ei, alguém está empurrando o copo!", seguidos rapidamente de juramentos solenes ("pela minha mãe mortinha atrás da porta" costuma ser uma má idéia nessa hora) de que ninguém está trapaceando. Seja como for, o copo parece realmente se mover sozinho e percorre a mesa lentamente tocando as letras uma a uma, formando repostas para as perguntas proferidas em voz alta pelos jovens; geralmente coisas profundas como o nome do futuro namorado ou se ele ou ela está sendo traído(a).



Se você nunca participou de uma sessão como esta, certamente conhece alguém que já o fez. A "brincadeira do copo", e suas variantes com canetas e compassos, são comuns entre os jovens, que a fazem por curiosidade, incredulidade ou simplesmente porque sentem nela o mesmo prazer de assistir a um filme de fantasmas, só que para valer. Os adeptos da religião espírita, por outro lado, não vêem nada de inocente na brincadeira e avisam que os espíritos que normalmente comparecem à sessão do copo são espíritos pouco evoluídos, zombeteiros e maldosos (os espíritos evoluídos parecem preferir outros meios de comunicação, como a psicografia). Confirmando a fama sinistra, muitas pessoas relatam histórias envolvendo desgraças dos piores tipos ocorridas com amigos de amigos que fizeram a brincadeira do copo. O livro "Copos que Andam", escrito por um morto e psicografado pela médium Vera Lucia Marinzeck, lança mais lenha na fogueira ao narrar diversas histórias terríveis, supostamente reais, de pessoas que se envolveram com a brincadeira do copo, em especial de uma jovem levada ao suicídio.


Neste artigo descobriremos a origem da brincadeira do copo e chegaremos à explicação da ciência para o fenômeno do copo que anda. No caminho passaremos pelas raízes do espiritualismo moderno e veremos como o que era apenas um passatempo familiar no século XIX passou a ser visto como algo malígno em nossos dias.


 

 

O nascimento do espiritualismo

 

O espiritualismo como o conhecemos hoje é uma invenção americana. Foi inventado no dia 31 de março de 1848, quando as adolescentes Margaretta e Catherine Fox descobriram que podiam se comunicar com os mortos, ou que, pelo menos, podiam convencer outras pessoas disto.

A família Fox vivia em um grande casarão na área rural do condado de Hydesville, NY. Um casarão grande, antigo e cheio de histórias de assombrações. Desde que se mudaram, os Fox vinham sendo incomodados todas as noites por misteriosos barulhos de pancadas nas paredes, estalos e passos em quartos onde não havia ninguém. Na noite do dia 31 de março, os barulhos recomeçaram e John Fox, o chefe da família, levantou-se mais uma vez em seu ritual noturno para vasculhar portas, janelas, frestas e saliências em busca da fonte dos barulhos. A certa altura, sua filha mais nova, Kate, que o acompanhava na vigília, percebeu que sempre que batia palmas um certo número de vezes, um igual número de estalos era ouvido. Kate dizia "faça como eu faço, Mr. Splitfoot", e os barulhos ecoavam pela casa em resposta aos seus. Desconfiada de que alguém pudesse estar lhes pregando um trote de primeiro de abril, a Sra. Fox decidiu perguntar em voz alta a idade de suas filhas. Para seu espanto, os estalos se seguiram suficientemente espaçados para que ela pudesse distinguir uma a uma a idade se suas filhas, incluindo uma que havia morrido muito cedo. Convencida de que não se tratava de uma brincadeira, a Sra. Fox fez uma série de perguntas sobre quem estava por trás dos misteriosos sons: "É um ser humano que está fazendo estes barulhos?" (nenhuma resposta). "É um espírito?" (um estalo foi ouvido) e assim por diante, até concluir que a ruidosa assombração era o espírito de um jovem caixero viajante que havia sido roubado, assassinado e enterrado no porão daquela casa. Escavações posteriores no porão revelaram um osso, aparentemente humano, e alguns pedaços de roupa, o que causou uma grande comoção. (Em 1904, 56 anos depois, uma ossada completa seria encontrada no porão. A história completa pode ser lida
aqui . Já os depoimentos do Sr. e da Sra. Fox sobre aquela noite em que tudo começou estão transcritos aqui).

A notícia de que as irmãs Fox podiam se comunicar com os mortos se espalhou como fogo em mato seco. Pessoas vinham aos milhares de todas as partes do país para presenciar o fenômeno. A irmã mais velha, Leah Fox Fish, que havia sido recentemente abandonada pelo marido sem um tostão no bolso, decidiu transformar em negócio a habilidade das irmãs e nomeou-se empresária das meninas. De Hydesville para o mundo, logo as Fox estavam realizando apresentações dos dois lados do Atlântico.

Com o estrondoso sucesso das irmãs Fox, não demorou muito para que outras pessoas descobrissem que também podiam se comunicar com os mortos e começassem a faturar por suas habilidades; até mesmo Leah, a empresária das irmãs, também começou a receber os espíritos, afirmando que o talento para se comunicar com os mortos era um dom familiar. A época era propícia para o negócio - o que os profissionais chamariam de uma janela de oportunidade - afinal, com mais de meio milhão de mortos da guerra civil americana (1861-1865) todo mundo tinha um parente ou amigo com quem gostaria de entrar em contato. Logo o espiritualismo tornou-se uma febre mundial, algo como os reality shows e programas de makeover modernos.

As pessoas com poderes de servir como meio de comunicação com o "outro lado" passaram a ser chamadas de "médiuns" (que siginifica "meio") e as sessões mediúnicas (sittings) passaram a ser shows muito concorridos. E muito impressionantes também. Os participantes se sentavam com as mãos dadas, em torno de uma mesa, em uma sala parcamente iluminada ("para não distrair", explicavam os médiuns), decorada por velas e símbolos ocultistas. Nos primeiros anos do fenômeno, uma mesa trepidante era suficiente para sinalizar a presença do espírito, mas com o passar do tempo (e o acirramento da concorrência) tornaram-se comuns descrições de objetos sendo atirados longe, aparições fantasmagóricas, instrumentos musicais que tocavam sozinhos, materializações e vozes misteriosas (como no final do filme "Os Outros"). Foi também nesta época de efervescência espiritual que surgiram as primeiras fotografias de fantasmas (o que foi uma notável coincidência com a invenção dos negativos de placas de vidro que permitiam dupla exposição; um efeito especial inexistente até então).



 

 

Declínio e queda do espiritualismo

 

Apesar de contar com vários simpatizantes de peso entre os intelectuais - Sir Artur Conan Doyle, criador do frio e racional detetive Sherlock Holmes, foi um dos mais fervorosos - o movimento espiritualista também tinha muitos críticos. Os céticos diziam que os fenômenos espirituais não eram nada mais do que truques baratos de mágica e acusavam os médiuns de explorarem a fé e a dor dos que procuravam consolo na comunicação após a morte.

Se os médiuns não eram mais do que mágicos mal intencionados, nada melhor do que outro mágico para desmacará-los. E assim iniciou-se a tradição - que se mantêm até hoje - de mágicos devotados a expor os falsos fenômenos paranormais. Alguns nomes ficaram muito famosos, como John Nevile Maskeylne e Alexander Herrmann, mas nenhum causou mais baixas ao espiritualismo do que aquele que foi o maior mágico de todos os tempos: Harry Houdini.

Houdini tinha uma experiência amarga com o espiritualismo. Certa vez, depois de muita relutância, ele permitira que Lady Doyle, a esposa de Conan Doyle, de quem era grande amigo, canalizasse as mensagens de sua mãe, que havia falecido recentemente. A mensagem que Lady Doyle transmitiu a Houdini estava em inglês e o chamava de "Harry". O único problema é que a mãe de Houdini nunca o chamava de Harry - que era apenas seu pseudômino artístico - e não falava uma palavra de inglês! Lady Doyle, até onde Houdini podia afirmar, era uma mulher honesta, que possivelmente acreditava realmente poder se comunicar com os mortos, mas Houdini sabia que outros médiuns estavam deliberadamente explorando a dor dos vivos. Houdini sabia bem demais disso; ele também já tinha praticado aqueles mesmos truques no início de sua carreira (o que lhe causou grande arrependimento pelo resto da vida). Por isso, e também para dar um impulso extra à sua carreira, que já não permitia as extravagâncias físicas da juventude, Houdini se tornou o arquiinimigo dos médiuns.


Houdini costumava comparecer disfarçado às sessões mediúnicas, acompanhado de um jornalista e um policial à paisana. Assim que a sessão tinha início e o "espírito" se manifestava, Houdini se revelava e expunha todos os truques do médium, para grande revolta e embaraço dos presentes. O médium era preso e a notícia saía com grande destaque no jornal do dia seguinte. As "batidas céticas" de Houdini eram tão populares que ele foi convidado a fazer parte do comitê permanente da revista Scientific American que investigava médiuns famosos. A revista oferecia um prêmio de 2.500 dólares, que Houdini depois aumentou para 10.000, para o médium que conseguisse produzir alguma manifestação espírita que Houdini não pudesse desmascarar (hoje em dia, o mágico James Randi elevou o prêmio para um milhão de dólares - desafio que nosso paranormal local, Thomaz Green Morton, "O Homem do Rá", aceitou há alguns anos e depois desistiu). Enquanto desmascarava médiuns pelo país, Houdini percorria universidades, igrejas, academias de polícia e convenções, demonstrando como os espiritualistas realizavam seus truques.

Como expoente do movimento espiritualista, as irmãs Fox foram várias vezes investigadas por céticos. Elas foram acusadas de produzir os sons atribuídos aos espíritos com os joelhos, tornozelos, pés e até por meio de ventriloquismo, mas a despeito dos esforços dos diversos comitês de investigação ninguém nunca provou nada, ao menos definitivamente. É bem verdade que muitos desses comitês investigativos eram formados por nada mais que "honrados membros da comunidade", escolhidos antes por sua posição de destaque na comunidade do que por sua proficiência em ciência ou mágica. Também é verdade que as respostas das meninas, obtidas através dos espíritos, eram muitas vezes bastante imprecisas, especialmente quando recebiam os espíritos dos "famosos". Sobre isso, conta-se que certa vez, durante uma sessão, um dos participantes levantou-se inconformado com os erros gramaticais das mensagens que supostamente estavam sendo enviadas por Benjamim Franklin, um grande intelectual em vida. Entretanto, isso não parecia afetar a credibilidade das meninas, que continuaram se apresentando por muito tempo.

O declínio das Fox veio afinal em 1888, junto com todo o resto do movimento espiritualista. Alcóolatras, pobres e,, sobretudo, profundamente magoadas com a irmã Leah, a quem acusavam de ter gastado todo o dinheiro ganho às suas custas e de ter conspirado para retirar a guarda dos filhos de Maggie, as irmãs decidiram que era hora de contar toda a verdade. Depois de uma declaração ao jornal New York Herald, Maggie reuniu a imprensa e, diante do salão lotado da Academia de Música de Nova Iorque, demonstrou como utilizava o dedão do pé para produzir os "sons dos espíritos". Maggie revelou que ela e Kate tinham aprendido a estalar os dedos dos pés quando crianças e que usaram esta habilidade para pregar uma peça em seus pais naquela noite em Hydesville. Segundo ela, a travessura, que era para ser apenas um trote de primeiro de abril adiantado, acabou saindo do controle e enveredou por um caminho sem volta quando a irmã Leah as obrigou a se apresentar como médiuns. A confissão das Fox não obteve o efeito esperado sobre a irmã, que a essa altura, tendo conquistado um bom casamento e uma posição de destaque na sociedade, queria distância do circo espiritualista. Talvez por isso, passado algum tempo Maggie e Kate se arrependeram, negaram tudo o que tinham dito e tentaram retomar o ganha-pão com o trabalho de médiuns. Mas já era tarde, nenhuma das duas resisitiu ao escândalo: Kate morreu em 1892 e Maggie no ano seguinte.

Ao final, mais do que a confissão das irmãs Fox e os numerosos escândalos de fraude, o que determinou a decadência do movimento espiritualista foi o seu próprio exagero. Mesas que levitavam, aparições fantasmagóricas, mensagens redigidas sozinhas e materializações começaram a parecer dramáticas e inacreditáveis demais para o século XX. Ainda assim, o fenômeno espiritualista experimentaria um revival durante a primeira guerra mundial, com seu novo contingente de mortos, e mais tarde nos anos 80 com o surgimento do movimento New Age, quando os médiuns revelaram capacidades, até então inexploradas, de contactar alienígenas e espíritos de sociedades míticas, como a Atlântida.



 

 

Os tabuleiros falantes

 

Logo depois do "telégrafo espiritual" inventado pelas irmãs Fox, o primeiro método utilizado pelos médiuns para se comunicar com os mortos foi a "mesa girante" (table turning). Um grupo de pessoas se sentava ao redor de uma mesa (quanto mais leve melhor) apoiando seus dedos sobre ela. Feitas as invocações espirituais iniciais, a mesa logo começava a balançar e girar batendo com suas pernas no chão; as pancadas eram transformadas em sinais: uma pancada para "sim", duas para "talvez" e três para "não". Era demorado e um tanto entediante, mas em uma época sem grandes passatempos as mesas girantes se tornaram uma verdadeira mania.

 

Logo depois do "telégrafo espiritual" inventado pelas irmãs Fox, o primeiro método utilizado pelos médiuns para se comunicar com os mortos foi a "mesa girante" (table turning). Um grupo de pessoas se sentava ao redor de uma mesa (quanto mais leve melhor) apoiando seus dedos sobre ela. Feitas as invocações espirituais iniciais, a mesa logo começava a balançar e girar batendo com suas pernas no chão; as pancadas eram transformadas em sinais: uma pancada para "sim", duas para "talvez" e três para "não". Era demorado e um tanto entediante, mas em uma época sem grandes passatempos as mesas girantes se tornaram uma verdadeira mania.

 

É verdade que muitos médiuns dispensavam instrumentos intermediários, redigindo diretamente as mensagens psicografadas ou as transmitindo oralmente em um estado alterado de transe. Mas para os médiuns menos habilidosos havia outras maneiras de se travar conversas espirituais. Em 1853, o espiritualista Isaac T. Pease patenteou o que chamou de Telégrafo de Discagem Espiritual, que consistia em um disco com letras inscritas na periferia e um ponteiro que se movia sob influência do médium. Inúmeras variantes desse aparato foram inventadas, tornando-se conhecidas genericamente por Comunicadores Espirituais Telepáticos. É interessante notar que houve algumas tentativas de criar aparelhos que fossem operados às cegas pelos médiuns, isto é, que eliminassem a possibilidade do operador influenciar consciente ou inconscientemente a mensagem. O mais notório desses instrumentos foi criado em 1855 pelo eminente professor Robert Hare, que de crítico contumaz havia se convertido em ardente defensor do espiritualismo (para grande desagrado da comunidade científica). Mas mesmo que esses aparatos ainda permitissem algum grau de manipulação - o médium experiente podia ler a expressão corporal de seu cliente como em um jogo de pôquer (um método conhecido por "leitura fria") - infelizmente eles não foram muito populares entre os médiuns; em 1861, quando Alan Kardec, pai do espiritualismo francês, conduziu as entrevistas com os espíritos que resultaram na bíblia espírita "O Livro dos Espíritos", ele escolheu um comunicador espiritual telepático clássico (similar ao PYTHO or The Thought Reader da figura).

Assim era o estado dos comunicadores espirituais, até que em 1886 algo novo surgiu: o Tabuleiro Falante (talking board). A novidade consistia em um tabuleiro com as letras do alfabeto, algarismos e algumas palavras como "sim", "não" e "boa noite". O tabuleiro era apoiado no colo de duas pessoas, que por sua vez apoiavam seus dedos sobre uma pequena tábua de quatro pés (uma planchette), que então deslizava sobre as letras.



 

A maioria dos primeiros tabuleiros falantes era artesanal e algumas pessoas utilizavam um copo de vinho no lugar da pequena tábua deslizante. Mais tarde, esse tabuleiro improvisado com o copo passou a ser conhecido como "Ask the Glass" (pergunte ao copo) ou "The Spirit of the Glass" (o espírito do copo) ou ainda "The Moving Wineglass" (o copo de vinho que se move).

O primeiro modelo comercial de um tabuleiro falante viria alguns anos depois, em 1898, quando Charles Kennard, William Fuld e sócios patentearam o Ouija Board (tabuleiro Ouija). Diz a lenda que o nome ouija foi obtido através do próprio tabuleiro como sendo a palavra em egípcio para "sorte". Como Ouija não significa sorte em egípcio nem em nenhuma outra língua (desse mundo pelo menos), o mais provável é que a palavra tenha sido escolhida como uma mistura das palavra sim em francês ("oui") e em alemão ("ja").

O tabuleiro Ouija foi um sucesso estrondoso. Até 1950, quase todo lar americano possuía um. Mais do que uma mania, ele foi um desses itens que se tornam parte da cultura popular, como a boneca Barbie ou o Halloween . O jogo já apareceu em vários filmes de Hollywood - não podemos esquecer a ponta sinistra que fez em "o Exorcista" que levou muita gente a jogar seus tabuleiros pela janela - em músicas, na televisão e na literatura. Hoje o tabuleiro Ouija é fabricado nos EUA pela mesma empresa que fabrica os populares jogos Banco Imobiliário (Monopoly) e Scrabble e vendido ao lado deles nas estantes das lojas de brinquedos. Em suas centenas de encarnações e imitações, houve tabuleiros para todos os gostos: modelos coloridos para as meninas (Ouija Queen), tabuleiros rosa-choque com mensagens picantes para apimentar sua vida sexual (Psychic Sex Board, coisa dos anos 70), tabuleiros que brilhavam no escuro, tabuleiros com símbolos de tarô, astrologia, pirâmides e até símbolos católicos (não deixe de visitar o fantástico
Museum of Talking Boards). Por algum motivo, supersticioso ou religioso talvez, o jogo nunca foi lançado no Brasil. Mas isso não é um problema; nestes tempos de internet você não precisa nem mesmo possuir o tabuleiro para jogar; chame seus amigos, substitua o copo por um mouse sem fio e faça a brincadeira on-line.


 

Mas o que é o tabuleiro Ouija afinal? apenas "um Scrabble com atitude", como alguém já o definiu, ou uma maneira menos nobre e até perigosa de comunicação com os mortos, como insistem alguns espiritualistas? Vamos agora ouvir o que a ciência tem a dizer.

 

 

Explicando o fenômeno - O efeito ideomotor

 

Quem já fez a brincadeira do copo não pode negar: o copo realmente se move e faz isso aparentemente sem ajuda de ninguém. O efeito é desconcertante e capaz de convencer mesmo os mais relutantes em abraçar a explicação sobrenatural.

Mas se é realmente um espírito que conduz o copo, então não faria mal nenhum vendar os participantes da brincadeira, não é? Pois blogs, fóruns de sites espíritas e céticos trazem dezenas de relatos de quem tentou fazer a brincadeira de olhos vendados. Há até relatos de médiuns que fizeram isso na frente das câmeras. Para todos o resultado foi o mesmo: o copo continuou se movendo mas as palavras formadas foram apenas sequências desordenadas de letras. Diante da experiência não há outra conclusão possível: espíritos, se existem, não ficam zanzando por aí movendo copos e pregando trotes em adolescentes. Deve haver outra explicação para o copo que anda.

Se isso não for suficiente para convencê-lo de que não há nenhum espírito envolvido no movimento do copo, tente uma abordagem adicional: faça ao copo uma pergunta que nenhum dos participantes da brincadeira possa conhecer a resposta - como um nome secreto escrito em um papel deixado em outra parte da sala a salvo dos olhares curiosos. Você também pode apoiar sobre o fundo do copo uma pilha daqueles apoios para copos (coasters; na falta deles use CDs) e pedir aos participantes que apoiem seus dedos sobre eles. Depois fique de olho: se o movimento partir do copo (empurrado pelo espírito) a pilha de apoios fará uma escadinha com o copo um pouco à frente dos seus dedos; se o movimento partir dos dedos dos participantes a escadinha será na direção oposta, com os dedos um pouco à frente do copo (dependendo do atrito entre os apoios e o copo é bem provável que os apoios deslizem e o copo nem saia do lugar, o que prova o ponto assim mesmo). Foi com um método parecido, mas mais elaborado, que o físico Faraday
provou, no século XIX, que as "mesas girantes", aquelas que tremiam e pulavam animadas pelos espíritos, na verdade eram empurradas pelas pessoas que se sentavam ao redor delas.

Mas mesmo que não seja um espírito o responsável pelo movimento do copo, como ele se move se os participantes juram que não o estão empurrando? Há sempre um trapaceiro em cada brincadeira? Felizmente, não. A resposta é que os participantes da brincadeira empurram sim o copo, mas o fazem inconscientemente, através de pequenas e involuntárias contrações musculares. Este efeito é bem conhecido pelos médicos e chama-se efeito ideomotor.

O efeito ideomotor é mais comum do que se pensa e você provavelmente já foi vítima dele. Como quando assistia a uma partida de futebol e, sem mais nem menos, chutou a poltrona no momento em que o atacante hesitou com a bola diante do gol. Ou todas as vezes que seus pés procuraram instintivamente o pedal do freio a cada manobra arriscada do seu amigo na direção. Médicos e psicólogos vêem o efeito ideomotor como um tipo de imitação involuntária; o observador age conforme o que vê ou o que gostaria de ver.

Provavelmente o primeiro cientista a se deparar com o efeito ideomotor foi o químico francês Michel Chevreul. Nos primeiros anos do século XIX estava na moda um novo método de análise química que usava um certo "pêndulo exploratório". Como em um tabuleiro Ouija (que ainda não tinha sido inventado) mas sem o aspecto espiritual (que também não tinha sido inventado), o operador segurava um pêndulo que oscilava sobre as letras do alfabeto, em uma placa, formando os nomes dos elementos químicos. Em 1808 um químico chamado Gerbouin escreveu um livro inteiro sobre esta modalidade de análise química e arrastou vários colegas na nova onda. Chevreul foi um pouco mais cauteloso e decidiu colocar o método à prova. Em suas primeiras experiências, Chevreul constatou que o pêndulo realmente se movia quando colocado sobre uma placa contendo mercúrio e que, quando o mercúrio era coberto por uma lâmina de vidro, o pêndulo diminuía seu movimento até parar. Depois de repetir a experiência várias vezes, sempre com o mesmo resultado, Chevreul decidiu tentar algo inédito; algo tão simples que ninguém ainda tinha pensado em fazer: repetiu a experiência de olhos vendados. O resultado foi que quando um assistente colocava e retirava a lâmina sobre o mercúrio sem que ele visse, nada acontecia; o pêndulo não se movia. Assim Chevreul conclui que ele próprio era responsável pelo movimento do pêndulo, ou seja, por mais que tentasse permanecer completamente imóvel não podia evitar que seus dedos movessem o pêndulo na direção que ele sabia que ele deveria se mover.



 

Muitos anos depois, em 1853, Chevreul foi indicado pela Academia Francesa de Ciências para fazer parte de um comitê responsável por estudar certos fenômenos sobrenaturais, especialmente as "mesas girantes", que, como vimos, eram a grande coqueluche daquela época. As mesas girantes já vinham sendo estudadas por cientistas nos EUA e na Inglaterra e eles já tinham descoberto um bocado sobre elas. Por exemplo, eles sabiam que a mesa parava de se mover se a atenção dos participantes fosse desviada ou se o "clima" fosse quebrado durante a sessão. Sabiam que a mesa não se movia se os participantes não possuíssem alguma expectativa de como ela deveria se mover, e também não se movia se metade das pessoas ao redor da mesa acreditasse que ela deveria se mover para a direita e a outra metade acreditasse que ela deveria se mover para a esquerda. Por outro lado, a mesa começava a se mover bem rapidamente se a direção do movimento fosse definida de antemão. Por tudo isso, os cientistas desconfiavam que os participantes, por mais honestos e inteligentes que fossem, estavam movendo involuntariamente a mesa em resposta às suas próprias expectativas. O psicólogo Willian Carpenter deu a esse efeito muscular involuntário o nome de efeito ideomotor. Coube ao físico Michael Faraday demonstrá-lo de forma espetacular, usando um aparato com folhas de papelão presos com elásticos à superfície da mesa. Pelo deslocamento relativo das folhas de papelão, Faraday mostrou como o movimento partia das mãos dos participantes, e não da própria mesa. Assim ele colocou um ponto final na discussão sobre a natureza espiritual do fenômeno.

O efeito ideomotor é tão convicente para aqueles que o experimentam que a grande maioria das pessoas que se inscreve para o Desafio de Um Milhão de Dólares de James Randi é de radiestesistas (profissionais que usam pêndulos como os de Chevreul ou forquilhas para detectar água, petróleo, campos de energia, qualquer coisa). Segundo Randi, essas pessoas acreditam honestamente em seus "poderes" e ficam genuínamente desconcertadas quando falham num exame às cegas (e eles têm falhado). Entretanto, nenhuma dessas pessoas admite a explicação natural do efeito ideomotor, preferindo atribuir o fracasso a algum fator desconhecido (veja
aqui e aqui).

 

 

A maldição da brincadeira do copo


 

Dê uma volta pela internet e você verá todo o tipo de histórias de arrepiar o cabelo sobre o tabuleiro Ouija e a brincadeira do copo. São histórias de pessoas que, depois da brincadeira, sofreram desilusões amorosas, se envolveram com drogas, perderam o emprego a sanidade e, nos piores casos, a vida. Há histórias cabeludas de espíritos que jogaram o copo longe, espíritos que se identificaram como o próprio Satã (essa é, de longe, a mais comum) e possessões com direito a vozes distorcidas, olhos virados e tudo o mais do gênero (veja aqui e aqui).

 

Mas já vimos que o tabuleiro Ouija nem sempre teve esta fama sinistra. Pelo contrário, ele já foi, e para muitos continua sendo, um entretenimento para toda a família. No final do século XIX e início do XX, as pessoas se reuniam em torno de um tabuleiro Ouija da mesma maneira que nos reunimos hoje em torno da TV para assistir a um filme. Ele foi até capa da popular revista semanal Saturday Evening Post, em sua edição de maio de 1920, em uma ilustração do badalado artista Norman Rockwell. Mas então como o tabuleiro Ouija ganhou sua reputação macabra?

A culpa é de
Hollywood. Se você pensar bem, verá que, assim como os índios e alienígenas, espíritos quase sempre fizeram o papel de vilões no cinema (até agora os espíritos ficaram de fora da onda revisionista politicamente correta americana). De fato não há muitos filmes sobre espíritos bonzinhos (bem, há Gasparzinho...). E qual a melhor maneira de entrar em contato com um espírito zangado prestes a matar todo o elenco do que usando o bom e velho tabuleiro Ouija? Veja "Amytiville 3D" (1983), por exemplo. Nele Meg Ryan, em um de seus primeiros papéis, pergunta ao copo: "há alguém nesta sala que esteja em perigo". Adivinhe a resposta. Essa é mais ou menos a mesma coisa que Michelle Pfeifer quer descobrir no filme "A Verdade Escondida" (2000) quando se tranca no banheiro com um tabuleiro Ouija comprado no K-Mart. Fundamental para a péssima imagem do tabuleiro foi a trilogia "O Espírito Assassino" (Witchboard, 1985). No primeiro deles, uma menina é possuída por um espírito maligno depois de brincar com um tabuleiro Ouija, abandonado durante uma festa (alguém havia esquecido de realizar o logout espiritual). Esse bom filme contêm todos os elementos que estereotiparam o Ouija: adolescentes irresponsáveis brincando com o que não deveriam, possessões demoníacas, sangue aos borbotões, etc. Outro filme com exatamente o mesmo tema (e os mesmos clichês), mas em uma perspectiva inglesa, é o elogiado "O Jogo dos Espíritos" (Long Time Dead, 2000): durante uma rave alguns jovens decidem brincar com o Ouija. A brincadeira vai pelo ralo quando o tabuleiro soletra "ALL DIE"... A longa tradição de filmes de terror adolescentes com o tabuleiro Ouija está longe de terminar. O último deles vem da Coréia (do oriente, aliás, vêm os melhores filmes de terror da atualidade, caso você não saiba) e na tradução para o inglês recebeu justamente o título de "Ouija Board" (Bunshinsaba, 2004). Três adolescentes, cansadas de serem importunadas na escola, invocam uma maldição sobre as colegas através do tabuleiro. O resto só saberemos quando o filme aportar por aqui, provavelmente refilmado por Hollywood. Mas foi "O Exorcista" (1973), talvez o fime mais assutador de todos os tempos (era comum que as pessoas abandonassem o cinema no meio do filme), que estigmatizou de maneira definitiva o tabuleiro Ouija. Logo no início do filme, a menina Regan explica para sua mãe como usa o tabuleiro para conversar com seu amigo invisível, o Capitão Howdy. Mais tarde descobre-se que o Capitão Howdy é o próprio Satã, que usa o inocente brinquedo para possuir o corpo da menina. Depois desse filme ninguém nunca mais olharia para um tabuleiro Ouija da mesma maneira...


 

Com toda esta atmosfera sinistra criada pelo cinema, e devidamente alimentada pelos espiritualistas, não é de estranhar que as crianças e jovens responsabilizem o tabuleiro Ouija por qualquer acontecimento fora do normal ocorrido depois da brincadeira. E uma vez que o movimento da planchete ou do copo é causado por uma ação muscular involuntária e essa ação é guiada pela expectativa de quem o toca, é natural que palavras como "morte", "Satã", "Hitler" e outras do gênero emanem tão freqüentemente da brincadeira. No Brasil, onde o tabuleiro Ouija nunca foi lançado e a brincadeira do copo é transmitida exclusivamente pelo boca a boca, juntamente com suas histórias macabras, o mito é alimentado em um círculo vicioso ainda maior. Visto dessa maneira, o alerta dos espiritualistas de que os espíritos que respondem à brincadeira do copo são maldosos e zombeteiros se parece mais com uma explicação ad hoc para o porquê das mensagens serem tão assustadoras quanto vagas.

 

 

Conclusão

 

Na Idade Média acreditava-se que o Sol, a Lua e os planetas eram puxados por anjos através do firmamento. Se isso é visto hoje como o símbolo de uma Idade de Trevas, em que reinava o obscurantismo científico, é porque a idéia de uma força invisível (porém experimentalmente comprovável) como a gravidade conseguiu se sobrepor aos mitos religiosos e à imaginação popular. Pena que o efeito ideomotor, muito menos sensacional, diga-se de passagem, não teve a mesma felicidade. Coloque seus dedos em um copo diante de algumas letras e os espiritualistas lhe dirão que o copo se move porque é empurrado por espíritos zombeteiros. Mantenha o tabuleiro, troque o copo por um pêndulo que oscile entre as mesmas letras e os radiestesistas lhe dirão que o pêndulo se move por causa de uma certa energia psíquica desconhecida (assim, entre o copo e o pêndulo, prefira o último: já que não há espíritos envolvidos, o pêndulo é garantido contra maldições).

Por muito tempo os comunicadores espirituais mecânicos serviram bem aos médiuns. Kardec utilizou uma versão conceitualmente não muito diferente de um tabuleiro Ouija para escrever o clássico livro que definiu as bases do espiritualismo moderno. Esse mesmo instrumento, tido por tanto tempo como um passatempo familiar inofensivo, foi demonizado pelo cinema e pelos espiritualistas, que agora buscam distância dos métodos de comunicação tão associados no passado a truques e manipulações. Classificado como uma espécie de telex espiritual, hoje só se comunicam pelo tabuleiro Ouija - asseguram os espiritualistas - espíritos pouco evoluídos; espíritos superiores enviam suas mensagens diretamente através da voz ou da pena do médium. É uma pena que esse progresso técnico tenha dificultado o exame científico dos fenômenos espirituais, que no passado protegeu a população da exploração dos farsantes. (Se é que se pode dizer que houve algum progresso; programas de auditório como o "Fazendo Contato", do médium John Edward, em que ele recebe os espíritos no palco, diante das câmeras, sugerem que a comunicação espiritual moderna se transformou num jogo de adivinhação em que o espírito se comunica com o médium através de pistas, mímicas e palavras desconexas que vão sendo refinadas com o auxílio do cliente. Sai de cena o tabuleiro Ouija e entra o "Imagem e Ação" do além).

Com tudo isso, nos dias de hoje o tabuleiro Ouija e a brincadeira do copo passaram a responder pelos pensamentos mórbidos, pelos comportamentos de risco e pelas fatalidades inevitáveis da vida dos jovens que brincam com o sobrenatural. Infelizmente, a experiência humana demonstra que o mal não está nas divindades ou nas entidades invisíveis que convenientemente recebem em silêncio a culpa que lhes é imposta, mas em nós mesmos.

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